Bem Vindo

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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Arquivo Secreto

No estado em que me achava, meio acordado, meio dormindo, vi-me dentro de uma sala. Não existia nada de interessante nela, excepto uma parede cheia de gavetas para cartões. Aqueles cartões que existem em bibliotecas públicas de arquivo de livros, etc. Mas estes arquivos, além de irem do chão ao tecto, pareciam não ter fim e tinham também títulos bem diferentes. Quando aproximei-me destes arquivos, o primeiro titulo a chamar-me atenção foi. «Garotas de quem gostei». Abri-o e comecei a ver os cartões um por um, para logo fechar a gaveta, surpreso em reconhecer os nomes ali escritos. De repente, sem ninguém precisar dizer-me, descobri onde estava. Esta sala sem vida, era, na realidade, o catálogo da minha vida. Aqui estava tudo organizado por acções, todos os meus momentos, grandes e pequenos, em detalhe que a minha mente não podia acompanhar. Um sendo de curiosidade e espanto, misturado com horror surgia dentro de mim ao abrir cada gaveta e descobrir o seu conteúdo. Algumas traziam-me belas alegrias e contentamento, saudade e memórias. Outras traziam-me vergonha, tão grande que olhei por detrás de mim para ver se havia alguém espiando-me. O arquivo intitulado «Amigos» estava ao lado do arquivo «Amigos que traí».
Os títulos iam do mero mundano à extrema loucura: «Livros que li», «Mentiras que contei», «Conselhos que dei»; «Piadas das quais ri». Alguns eram hilariantes devido à sua exactidão: «Coisas que gritei aos meus irmãos». Em outros não havia a menor graça: «Coisas que fiz quando estava com raiva», «Palavras que proferi contra os meus pais por trás deles.»
Eu não me parava de surpreender com cada conteúdo que se apresentava. Alguns arquivos tinham normalmente mais cartões do que eu esperava. E outras vezes, menos do que eu sonhava. Eu estava estupefacto com o volume de coisas que fiz durante a minha curta vida. Como pude ter tido o tempo necessário para escrever esses milhões e milhões de cartões, cada um na sua exactidão?
Mas cada cartão confirmava uma verdade. Cada um deles eu havia escrito com o meu próprio punho e constava a minha assinatura em todos. Quando puxei o arquivo: «Músicas que escutei», vi que o arquivo crescia para conter todo o seu conteúdo.
Depois de puxar uns 4 ou 5 metros resolvi fechá-lo envergonhado. Não somente pela qualidade depravada das músicas, mas também pelo vasto tempo perdido que todo aquele arquivo representava.
Cheguei então a um arquivo intitulado «Pensamentos sexuais». Senti um calafrio percorrer todo o meu corpo. Abri a gaveta somente um pouquinho, pois não estava a fim de testar o tamanho, e tirei um dos cartões. Fiquei todo arrepiado com o conteúdo. Senti-me mal em saber que este momento havia sido gravado. Uma raiva animal tomou posse de mim. Um pensamento tomou conta de mim: «Ninguém deve saber da existência destes cartões! Ninguém deve entrar nesta sala! Tenho de destruir tudo!» Em frenéticos e loucos movimentos puxei uma das gavetas, estendendo metros e metros de conteúdo infinito. O tamanho do arquivo não importava. Nem o tempo que levaria para destruí-lo. Quando a gaveta saiu, joguei-a no chão, de cabeça para baixo, e descobri que todos os cartões estavam colados! Fiquei desesperado e peguei um bloco de cartões para rasga-los. Não consegui. Peguei um. Era duro como aço quando tentei rasgá-lo.
Derrotado e cansado, coloquei a gaveta de volta no seu lugar e encostando a minha cabeça contra a parede, deixei um triste suspiro sair de mim. Foi então que eu vi: um arquivo novo, como se nunca tivesse sido usado. A argolinha para puxar brilhando de limpa debaixo do título «Pessoas com quem falei de Cristo.» Puxei o arquivo, menos de 5 centímetros de comprimento. Eu podia conter os cartõezinhos na minha mão. Aí, então, as lágrimas vieram. Comecei a chorar. Soluços tão profundos que machucaram meu estômago e me faziam tremer todo. Caí de joelhos e chorei mais e mais. Chorei de vergonha, de pura vergonha. A infinita parede de arquivos, já embaçado pelas minhas lágrimas olhava de volta para mim, imóvel insensível. Pensei: «Ninguém pode entrar aqui.» «Tenho de trancar esta sala e destruir ou esconder a chave.»
Enquanto enxugava as lágrimas eu vi-o. Não! Ele não! Não aqui! Todo o mundo, menos Jesus! Olhei-O, sem poder fazer nada, enquanto Ele aproximou-Se das gavetas e começou a abri-las, uma por uma, lendo os seus conteúdos. Eu não podia ver a Sua reacção. Nos momentos em que tomava coragem suficiente para olhar no Seu rosto, eu via uma tristeza bem mais profunda do que a minha. E parece que Ele ia exactamente aos piores títulos. E Ele tinha que ler cartão por cartão?
Finalmente, Ele virou-se e ficou olhando-me, desde o outro lado da sala onde estava. Olhou-me com dó nos Seus olhos. Não havia nenhuma raiva. Abaixei a cabeça e comecei a chorar, cobrindo a minha face com as mãos. Ele andou até mim, abraçou-me, mas não me disse nada. Ah! Ele poderia ter dito tantas coisas! Mas não abriu a boca. Simplesmente chorou comigo.
Depois, levantou-Se e dirigiu-Se para a primeira fila de arquivos. Abriu a primeira gaveta, numa altura que eu não alcançava, tirou o primeiro cartão e assinou o Seu nome. E assim começou a fazer com todos os cartões. Quando percebi o que Ele estava fazendo gritei «Não!» bem alto, correndo na Sua direcção. Tudo o que podia dizer era: «Não! Não!». O Seu nome não deveria estar nestes cartões. Mas ali estava, escrito num vermelho tão rico, tão escuro e tão vivido. O nome Jesus cobriu o meu. Estava escrito com o Seu próprio sangue.
Ele olhou para mim um tanto triste e continuou a assinar. Nunca entenderei como Ele assinou todos os cartões tão depressa, pois quando me dei conta, Ele já estava ao meu lado. Colocou as mãos no meu ombro e disse: «Está consumado» Levantei-me e ele levou-me para fora daquela sala. Não existia fechadura na porta, e ainda existem muitos cartões a serem escritos…

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