“Convertei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1,15)
Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus; convertei-vos e
acreditai no Evangelho. Este é, para o evangelista Marcos, o pórtico de
toda a pregação de Jesus e, simultaneamente, o conteúdo fundamental do
Evangelho: o reino de Deus que está presente na Sua pessoa.
Deste
modo, converter-se significa acreditar em Jesus e tornar-se seu
discípulo, ação que Jesus protagoniza logo de seguida, ao chamar Simão e
André, Tiago e João e quantos se lhe seguiram, ao longo dos tempos, na
resposta à mesma vocação e no acolhimento da mesma missão.
Convertei-vos a acreditai no Evangelho constitui, igualmente, o pórtico
de entrada na Quaresma. Apelo renovado anualmente pela Igreja, em
quarta-feira de cinzas, com o objetivo de abrirmos o nosso coração e a
nossa vida à misericórdia de Deus, de modo a renovarmos a nossa fé no
Ressuscitado e a reafirmarmos a nossa adesão pessoal a Cristo e ao
Evangelho, à luz do dinamismo presente no mistério pascal.
A Igreja,
qual mãe zelosa pelos seus filhos, guia-nos neste caminho,
servindo-nos, de modo mais abundante e insistente, o alimento
indispensável para que prossigamos, sem desanimar, neste caminho de
conversão:
- a escuta mais assídua da Palavra de Deus;
- a oração mais sincera, que aproxima de Cristo e é reflexo da vida;
- o jejum, que vai muito além do privar-se de alimento;
- a esmola, que traduz o caminho de conversão na partilha fraterna e solidária.
A Páscoa de Jesus não é um acontecimento do passado: pela força do
Espírito Santo é sempre atual e permite-nos contemplar e tocar com fé a
carne de Cristo em todos os sofredores do nosso tempo. Colocar o
Mistério pascal no centro da vida significa sentir compaixão pelas
chagas de Cristo crucificado presentes nas inúmeras vítimas inocentes
das guerras, das prepotências contra a vida desde a do nascituro até à
do idoso, das variadas formas de violência, dos desastres ambientais, da
iníqua distribuição dos bens da terra, do tráfico de seres humanos em
todas as suas formas e da sede desenfreada de lucro, que é uma forma de
idolatria (cf. Francisco, Mensagem para a Quaresma, 2020).
Sempre
que partilhamos o que somos e o que temos, unindo-nos a todos os homens e
mulheres de boa vontade, contrariamos a inclinação para “construir
muros” à nossa volta, bem como a tendência para a acumulação supérflua e
o desperdício, e contribuímos para minorar o sofrimento humano,
tornando-nos semeadores de esperança.
Também este ano somos
convidados a nos unirmos, como Igreja diocesana, na partilha fraterna
presente na “renúncia quaresmal”, como expressão concreta da nossa
conversão pessoal.
No ano passado a nossa partilha destinou-se a
algumas comunidades das dioceses de Viana e Luena (Angola), para as
quais enviámos 20.000€. Esta quantia destinou-se à promoção humana e
social, sobretudo no campo da educação (participação na construção de
uma Escola). Eu próprio tive a oportunidade de verificar, pela visita
que ali realizei em julho passado, a oportunidade e o acerto desta
partilha. Os missionários e as comunidades beneficiadas manifestaram-me o
seu reconhecimento à diocese do Algarve.
Este ano decidimos acolher
o pedido que nos chegou da diocese de S. Tomé e Príncipe, mais
concretamente, por indicação do seu Bispo D. Manuel Santos, a Paróquia
do Príncipe. A verba recolhida destinar-se-á a apoiar a resposta a
diversas carências pastorais e sociais, nomeadamente, a formação
escolar, a reconstrução da igreja paroquial (teto a ruir), a conclusão
da Casa da Catequese, a formação dos agentes de pastoral…
Exorto
todos, à semelhança dos anos anteriores, à generosidade nesta partilha
fraterna, expressão da nossa comunhão eclesial com esta diocese
missionária e esta comunidade paroquial, que pede a nossa ajuda.
Iluminados pela luz de Cristo ressuscitado, deixemo-nos guiar por Maria,
neste caminho de conversão pessoal a Cristo e de adequação da nossa
vida ao seu Evangelho.
Manuel Quintas, Bispo do Algarve
Quarta-feira de Cinzas
26 de fevereiro de 2020
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